sexta-feira, 13 de outubro de 2017

A galinha salgada



Ela prepararia uma galinha caipira com muito gosto para o Viajante almoçar e também para os que participariam da reunião. Almoço de galinha caipira é uma coisa especial das comunidades rurais do Baixo Parnaíba maranhense. O Viajante exercia como sempre o papel de repórter popular, narrando com seu romantismo particular os fatos simples da vida e do dia-a-dia dos povos e comunidades tradicionais de sua região, pois parte dessa literatura e de seus vocábulos deve-se a esse tema. Apesar de poeta,  título esse preferido em seu mundo das letras. A tarefa do dia envolvia uma programação que trataria do problema da terra dos posseiros no do Baixo Parnaíba maranhense. Enquanto acontecia a reunião a panela chiava na cozinha coberta de palha e, o cheiro entrelaçava sobre a abóbada da humilde moradia. Era o começo das atividades daquele dia de trabalho.
Dona Maria além de excelente cozinheira é também uma grande liderança que não perdia tempo para falar em defesa de sua terra, uma área cercada de monocultura do eucalipto – programa esse devastador das chapadas e um dos responsáveis pela violência no campo brasileiro; especialmente falando do cerrado, onde está sendo implantado o macabro plano de desenvolvimento do cerrado – (Matopiba). As comunidades do Baixo Parnaíba estão inclusas dentro desse espaço. Urbano Santos fica dentro do Matopiba -, um dos municípios que apresenta um dos maiores índices de problemas socioambientais, principalmente quando se trata da disputa por terra e por água. Fenômenos como o avanço dos monocultivos que se reaparecem e que vem destruído e transformando os modos de vida nos povoados e vilarejos.
A reunião começava, Dona Maria falava e a galinha cozinhava na panela, no velho fogareiro de carvão. Não deu tempo para a mestra Maria temperar a galinha, alguém fez por ela; pois aquela ocasião não deixara. Dava-se início as falas, eles passaram horas e horas conversando e debatendo sobre as questões de seu território que vem sendo ameaçado a cada momento que passa, a água foi um dos pontos fundamentais das discussões; os rios que estão secando por causa de impactos diretos dos programas capitalistas de expropriação de terras  - (eucalipto). A defesa das áreas de pesca também foi lembrada... Além de muitos outros assuntos que voaram. O Viajante estava ali escutando e anotando em seu caderno. Esperava-se que a reunião pudesse terminar ao meio dia, mas o assunto não deixara... Todos falavam que quase se esqueciam de almoçar. Quando lembraram e a barriga avisava; então depois de quatro horas de reunião de falas e todo serviço burocrático de atas e assinaturas dos presentes, ouvia-se da cozinha o convite para todos seguirem para o almoço.
Um silêncio! Quando Dona Maria – a anfitriã surpreendeu a todos com algo que não queria calar, mas só ela podia dizer: “Minha filha a galinha está salgada de mais”! - A moça olhou ligeiramente para sua mãe, mas não disse nada, talvez ficara envergonhada! De fato ficou mesmo! Mas a fome e o sabor não deixara estragar o momento principal da degustação. Pois Dona Maria não tinha condições de ir para o fogão. Precisava participar da reunião, onde muito contribuiu.

José Antonio Basto
E-mail: bastosandero65@gmail.com                                                                                   


quinta-feira, 12 de outubro de 2017

sentir pena

Nao tem se observado agua nesses meses. O céu segue com poucas nuvens. Ou não segue. Tudo parara. Sem razão alguma para se mexer. Duas crianças brincavam de algo que não soubera precisar.  Elas pareciam invencíveis sob aquele calor.  
Ele daria a ela algumas mudas de pimentão e de pimenta e mais dez pintos. Uma mulher gosta de ganhar roupas e de ganhar  cosméticos. Ele não levava presentes para conquista-la e sim  animais e plantas para a familia. Não era pretensão sua conquista-la. Numa situação normal. ela viraria a cara e mandaria ele levar de volta "os presentes". Pela reação que teve era justo esperar o seu rechaço. "Tu só me da trabalho. Como assim ? Trouxeste mudas. Quem disse que eu quero ? Vou carregar água do rio para molha las. Tu me da trabalho." Ela proferira essas palavras na cozinha pronta para passar cafe no fogao rustico nos fundos da casa. A familia armazenava agua em grandes recipientes de plastico próximos ao lugar de lavar as mãos. Pronto o cafe, ela despelaria o capote que morrera em suas mãos alguns minutos antes. Ele sentira pena do capote ali deitado no chão da casa sem dar nenhum sinal de vida. Ela endurecera : " sentir pena de matar o capote ?!!! Eu sou ate capaz de matar uma pessoa."

Mayron Régis

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Anoiteceu em Baixa do Cocal



Quando se viaja pelas comunidades rurais do município de Urbano Santos, Baixo Parnaíba maranhense, se percebe diferenças nos caminhos que dantes eram estradas tradicionais; caminhos e veredas donde os camponeses trafegavam com suas cargas de palha, mandioca, materiais da lavoura... Enfim, coisas que só as comunidades tradicionais sabem fazer. Estes mesmos caminhos e veredas foram transformados e aplainados pelos plantios de eucaliptos e soja das empresas que por estas bandas estão implantados seus negócios. O agronegócio que nada representa para os homens e mulheres do campo – um programa capitalista que usa e abusa da terra gerando lucros individuais – deixando, portanto, um legado de destruição da natureza, com a expulsão das espécies animais e naturais da região... Transformando os modos de vida dos povos tradicionais.
A terra das comunidades de Baixa do Cocal I e II – são terras devolutas do estado – uma média de 800 hectares, áreas que foram ocupadas por retirantes do Ceará e Piauí  nas primeiras décadas do século XX, assim como muitos outros povoados da Região do Baixo Parnaíba. A convite de amigos companheiros de luta, participei de uma reunião de criação da Associação de Trabalhadores Rurais –, sabe-se que a organização é o passo fundamental de uma entidade e mais ainda quando se trata da terra. As comunidades vizinhas da Baixa do Cocal como a Mangabeirinha, Santana e Ingá também são impactadas pela monocultura – essas e outras comunidades aguardam a vinda do ITERMA para o sistema de arrecadação. Mas além desse problema os moradores têm intrigas entre si – coisas que não deveria acontecer, apesar de ser normal. Lutar pela terra e por direitos requer união das pessoas, uma vez que os frutos da terra são distribuídos para todos e todas. A compreensão no meio camponês é algo desafiador – resolver e /ou pelo menos aquietar ânimos entre vizinhos não é uma tarefa fácil para um militante ou Sindicato, mas fácil é jogar seus ideais com respeito e provas contra os sistemas no desejo de uma vida melhor para os menos favorecidos e desprovidos de direitos.
Passava-se o dia todo por lá, voltaria a tarde – mas o almoço de galinha caipira não deixara vir cedo. O sol ardente, em meio a chapada – começava-se a reunião de demarcação e catalogação das áreas ditadas pelos posseiros. Documentos foram apresentados, mas as verdadeiras certidões estavam ali presentes. “Os próprios camponeses”. Que ali moram, trabalham, se reproduzem socialmente e culturalmente há décadas... Séculos. Eles sabem onde pisam, onde fazem suas roças, conhecem muito bem as áreas de caça e boladas de bacuris que colhem no tempo certo. Se mantém na resistência de seus afazeres tradicionais. A tarde vinha e a preocupação de trilhar as chapadas crescia, pois, os envios caminhos se perderiam a não ser pela velha estrada de sempre. Os assuntos que só interessam a eles foram resolvidos e acordados com o intuito de manter o desenvolvimento e sobretudo o crescimento coletivo de produção e organização.
Raramente se encontra comunidade hoje em dia sem energia elétrica, graças ao “Programa Luz para Todos”, mas por mera consciência do destino a energia faltava naquele final de tarde e aí era a vez das velhas lamparinas. O Viajante foi convencido de ficar mais tempo – pois ali, após a finalização de um longo dia de trabalho saia muitas histórias dos mais antigos, como era a região há 50 anos atrás – as farturas de alimentos e de água que não se ver mais agora. O cheiro das panelas que cozinhava o restante da galinha para o jantar adentrava pela sala onde estava a roda de conversa sob a luz das lamparinas. Passava-se o tempo sem ninguém perceber, quando “Anoiteceu em Baixa do Cocal”. Restava então o fim da conversa, o jantar e a apreciação da lua com seu espetáculo no coração do Baixo Parnaíba.

José Antonio Basto

E-mail:  bastosandero65@gmail.com      

A destruição do ambiente do senhor Ferreira pela familia Introvini

O senhor Ferreira e um dos antigos moradores do povoado Brejao municipio de Buriti. Ele completou mais de sessenta anos sendo que boa parte desses anos vividos no povoado. Nao e de sair muito para longe do povoado a nao ser para o Araca povoado vizinho e para a sede do municipio que de moto leva meia hora. Uma acao na justica em que pede a manutencão de sua posse contra o grupo Joao Santos motivou suas ultimas idas a cidade. Fora do seu habitue e do seu habitat, seu Ferreira passou alguns dias na cidade de Balsas durante a Romaria dos Cerrados. Não tinha como conceber que o Andre Introvini plantador de soja ordenou aos tratoristas que esbagaçassem com seus tratores a vegetacão que protege as margens de um afluente do rio Munin. O Andre Introvini comprou mais de tres mil hectares das maos do grupo Joao Santos e quer que os moradores de Brejao se retirem o quanto antes. Com a saida dos moradores ele desmatara 900 hectares de Chapada. O seu pai Gabriel Introvini representante legal dos negocios da familia pediu a SEMA que licencie o desmatamento. O tecnico responsavel pela analise considera as informacoes contidas no processo falhas e equivocadase por isso solicitará complementações.
Mayron Régis

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

A escala social dos motorizados

A familia Introvini de plantadores de soja veio de outra freguesia para mandar na freguesia dos outros. Eles nao vieram da "freguesia do o" mas bem que podiam cantar "aqui pra voces" para os maranhenses. O Andre Introvini nao escancarou de imediato que ele e seu pai Gabriel Introvini queriam cantar de galo ou de galos na freguesia do municipio de Buriti. Nao e que nao quis. Ele nao cantou de galo porque chegou em Buriti puxando a cachorrinha. Edmilson, presidente da associacao do povoado Araca, recordou-se bem das primeiras vezes em que viu o Andre Introvini. " Ele andava de moto." Eram poucas as pessoas que podiam comprar e manter uma moto no comeco do seculo XXI. O Andre subiu um pouco na escala social dos motorizados. Ele passou a dirigir uma caminhonete. Custou um pouco,mas as ultimas safras de soja deram vazao aos desejos reprimidos de amplos setores da sociedade brasileira. Recentemente, a familia Introvini alargou seus horizontes de destruicao da vegetacao nativa de Buriti com o pedido para desmatar tres areas cujos processos a Secretaria de Meio Ambiente do maranhão analisa. Uma dessas areas foi motivo de audiencia na promotoria. O promotor convocou os Introvini para informa los que nao aceitaria mais desmatamentos no municipio e que proporia a camata de vereadores uma lei que proiba novos desmatamentos.
Mayron regis

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Eu sou o documento de minha terra

Como imaginar o documento de uma terra? Se esta terra não tem dono. A terra nunca teve dono – a terra é de todos que trabalham nela. O bem comum produzido e desenvolvido no espaço é usufruído por todos.
Relembrando as aulas de história sobre “Comunismo Primitivo”, Engels em sua importante obra “A origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado” – utilizou métodos materialistas retomando o assunto desde o início da civilização humana, com uma abordagem sobre o trabalho primitivo que era feito para suprir as necessidades básicas e imediatas dos grupos familiares, não havendo, portanto preocupação com o acúmulo de riquezas (sobras). A “TERRA PERTENCIA A TODOS E NÃO HAVIA ESCRAVIDÃO”.
Em Gonçalo dos Mouras – município de Urbano Santos, povoado às margens da MA-225, terra de posse da família “Mouras” -, área da comunidade atingida pelas plantações de eucaliptos e que vem enfrentando um conflito pela posse da terra desde décadas remotas. O velho Gelson Ferreira, que não é “Mouras”, apenas sua esposa, recebeu esse sobrenome porque seu pai exercia a profissão de “Ferreiro”. Os problemas de Gonçalo acentua no calendário dos vários conflitos no campo nas décadas de 60, 70 e 80. A CPT naquela época acompanhava as comunidades coletando dados desses fenômenos que se perpetuaram até os dias de hoje. A CEB era a de Tabocas, que até agora está de pé.

A Terra de Gonçalo foi ocupada por famílias camponesas desde a década de 20, hoje já na quarta e quinta geração os trabalhadores rurais ainda resistem os desacatos dirigidos a eles. A questão se arrasta há décadas e décadas, ao ponto de se chegar ao extremo – como por exemplo a morte misteriosa de duas pessoas na década de 70 que não vale ao repórter entrar em detalhes, obviamente por falta de conhecimento do caso. Mas aconteceu e os moradores mais antigos do povoado assim como o Gelson, sabe contar detalhadamente os fatos ocorridos. 
A comunidade atravessou gerações e a terra de modificou, as chapadas da frente das casas foram substituídas por eucalipto, o rio baixou seu nível d` água e os chamados gaúchos compraram e/ou grilaram o restante das matas e chapadas. Pouco restou para a agricultura familiar, para os camponeses fazerem suas roças e botarem seus animais para pastar. Ficaram encurralados entre o rio e as plantações de eucaliptos. Sentiram a necessidade de criar uma Associação de Moradores para assim, fortalecer a luta, sendo que a única área que eles têm alguém já está de olho nela há muito tempo; eis a questão! Pois a terra hoje em dia - principalmente no Baixo Parnaíba maranhense é sinônimo de capital e poder. Os programas de expropriação e expulsão de homens e mulheres do campo representado pelo MATOPIBA -, a única fronteira agrícola do cerrado brasileiro do qual o Território do Baixo Parnaíba está incluso.
A comunidade tem resistido às demandas. Os netos de Gelson assumiram a luta, como sua esposa, Dona Antonia, que disse: “Se nós perdemos essa terra onde meus filhos e netos vão trabalhar”? “Esse pedaço de terra é tudo que nós temos”, acrescentava. Gelson o maior líder dos posseiros desde cinco décadas atrás é um homem de conhecimentos gerais, teve sua formação nas escolas das CEBs e da vida – viajando com amigos advogados e religiosos, deficiente de cegueira, não enxerga nada, anda pela casa com sua bengala, aconselhando e encorajando seus filhos e netos na luta pelos seus direitos. Durante sua vida passou por muitas adversidades e pelejas que lhe marcaram momentos de perdas e conquistas na existência dos dias. Durante a reunião de criação da Associação, em sua fala disse que certa vez uma pessoa lhe perguntara sobre o documento dessa terra. E ele sabiamente lhe respondeu: “Eu sou o próprio documento de minha terra! Meu bisavó, avô e pai nascerem e se criaram aqui e aqui estou com meus filhos e netos! Existe documento e prova maior”?



José Antonio Basto
Comunidade Gonçalo dos Mouras  - Urbano Santos, Baixo Parnaíba maranhense


O que sobrou após a passagem do fogo

O que sobrou da vegetação após a passagem do fogo ? As cinzas, as arvores ressecadas e a sequidão do clima. Os funcionários da Suzano Papel e Celulose, responsaveis pelo combate ao fogo nos plantios de eucalipto da empresa, informaram ao Deuzim, morador do povoado Coceira, municipio de Santa Quiteria, que se viram obrigados a cortar um pedaço do arame liso da comunidade. Os moradores compraram o arame liso, bem mais caro, para cercar os 1000 hectares de Chapada titulados pelo Iterma em vez do arame farpado porque não há perigo de roubarem. A comunidade cercou mais de 1000 hectares de Chapada, mas nem tudo que está dentro do cercado lhe pertence. Há um experimento da Suzano Papel e Celulose que alguns veem como eucaliptos transgênicos enquanto outros veem como uma variedade de eucalipto pensada para consumir menos agua. O Gilmar da Masul, plantador de soja da região do Baixo Parnaiba, possui titulos de terra do Iterma dentro da Chapada do Coceira comprados  da mão de pessoas desconhecidas na região. É uma prática recorrente do Gilmar, de outros plantadores de soja e da Suzano Papel Celulose comprarem posses ou titulos do Iterma que chegam a 200 hectares os quais se transformam em fazendas de 2000 hectares. As comunidades de Tabocas e do Baixo a Coceira 2 requereram a regularização fundiária de uma grande extensao de Chapada entre as duas comunidades que tem por nome Baixão do Luciano. O Gilmar providenciou dois titulos de terra de 200 hectares nessa Chapada. Não para si. Rateou-se a Chapada em quatro fazendas ou seja os 200 hectares, futuramente, tornar-se-ião fazendas de mil a dois mil hectares cada uma.  
Mayron Régis